sexta-feira, 18 de maio de 2007

Seu Migué costumava acordar cedinho
Fumar um cachimbinho
E tomar o seu café

Seu José
Lavorava de noite
Sempre com seu acoite
Preso na cintura
Pra quando aparecer qualquer criatura,
Ele poder açoitar

Dona Felisbina
Com muitas rugas no rosto
E alma de menina
Preparava o angu, cará e mungunzá
Pro Seu Migué poder almoçar

Vejam só que mocidade
Encontramos na alma de velhinhos dessa idade

Falam a filosofia da terra
A filosofia da guerra
Da luta de todo santo dia

Rezam a reza dos céus
A reza de Deus
Que às vezes penso que os esqueceu

Mas de dentro dos sulcos das suas rugas
Brotam a fé mais pura

E dos sulcos arados na terra
Brotam a esperança pura
De que um dia, se Deus quiser,
Germinará o amor e toda sua doçura

E que esqueçamos de toda essa loucura
Vivida pelos que não têm rugas na pele
Mas que têm sulcos profundos na alma

terça-feira, 1 de maio de 2007

Por esses dias, avistei um chato de galochas
Sem eira nem beira
Que fazia tudo nas coxas
Lá onde o Judas perdeu as botas
Que não eram galochas como as do chato

Depois de gastar toda sola
E de andar lá pras bandas de onde o vento faz a curva
Ofereceu-me, como assim de presente,
Aquele calçado, usado, surrado
Com aquela catingueira de queijo

Eu agradeci meio acanhado
Porque como se diz
Cavalo dado não se olha o dente

sábado, 28 de abril de 2007

hoje, despertei
e me encontrei
sozinho
longe
do que estava perto
de mim,
ontem

terça-feira, 24 de abril de 2007

Meu amigo baratinho
Teve uma enxurrada de idéias
De rimas

Fique calmo amiguinho
Dorme bem
Dorme em paz
Que amanhã tem mais

Assim, você está me deixando pra trás

segunda-feira, 23 de abril de 2007

tentei fazer uma poesia
desejos, intentos, desígnios
já são vinte e dois
e vou tentando
até agora nem chico
torquato ou pessoa
tentando como quem vive à toa
na estante, livros, vinis e uma esperança
no coração, uma sensação e uma criança
não obstante, bateria e alto-falante
só pra mim, no meu quarto, meu momento
num sonho, num sopro, de uma vez
se eu ainda não sei, ainda tento
eu gosto de escrever
desde que ninguém leia
eu gosto de transar no escuro
desde que eu veja
eu gosto de rezar pra deus
desde que ele lá esteja
eu não gosto de gostar dela
eu não sou o que ela deseja.
não dá.
quando não consigo dormir
chega a cansar ficar deitado na cama.
me consome o fato de algo me consumir
pra não me deixar dormir.
daí eu levanto, bebo água, abro a geladeira
pego dois ovos e cozinho-os.
como pão, azeite e sal e penso muito
na vida. penso bem, na tranquilidade
assustadora de barulhinhos na madrugada.